segunda-feira, 25 de maio de 2009

Marcelo Crivella





Data: 24/05/2009 Fonte: Jornal do Brasil

ARTIGO - Marcelo Crivella


Dom Eugenio Sales

Tive a oportunidade de estar algumas vezes com o cardeal dom Eugenio Sales. Nunca tratamos de política eleitoral. Falamos das preocupações que temos com uma sociedade que se afasta dos valores cristãos e navega a esmo nos ventos dos ódios e das paixões. Falamos de educação religiosa para as crianças, do perigo das drogas, da violência que nos atormenta.
Ele me contou da sua experiência no sertão da Paraíba, e do seu Rio Grande do Norte, onde nasceu e de onde não se esquece. De projetos de irrigação que, como sabemos, é uma dívida que cada brasileiro tem com seus irmãos do semi-árido, pelo muito que deles recebemos, não só em termos culturais, mas sobretudo
e principalmente pelo inestimável capital humano que, trabalhando longe da terra querida, construiu nossas metrópoles e essa imensa forja onde se retemperam as essências mais puras da nossa brasilidade, a capital da República, o maior monumento artístico de uma raça imbuída do espírito de nação. Nossos encontros foram momentos agradáveis quando tive a impressão de ver refletido no seu semblante a paz da sua consciência. Dom Eugenio tem uma vida social impecável. Modesto, humilde, conciliador e incansável, só por um momento deixou transparecer uma ponta de desgosto, quando se referindo aos problemas do sistema de saúde e da agonia dos enfermos na fila dos hospitais, notícia constante dos jornais, disse baixinho:
"Já não suporto mais isso".
Nossas conversas sempre se deram nas horas lentas do dia, como dizia padre Godinho, quando a tarde escorre calma para os braços do crespúculo, velho e cansado porteiro da noite. Nunca fiz a ele queixas de qualquer natureza nem dele recebi qualquer tipo de ponderação grave. Temos divergências doutrinárias, nesse supremo anseio de ser útil ao Evangelho de Cristo, mas temos o mesmo desejo de servir o próximo. Reparei que o cardeal não é homem da ribalta e do proscênio.
Só ocupa a cena quando convocado para servir a uma causa digna que dele dependa para um gesto distinto ou um conselho seguro, voltando logo em seguida, quase que anônimo e despercebido, para o fundo do palco, sem aceitar recompensas ou buscar a glória dos aplausos.
Foi assim que recentemente a nação assistiu com surpresa e gratidão seus feitos heroicos em uma época de profundas contradições, o período da revolução, quando ele abrigou, sustentou e encaminhou em segurança dezenas de refugiados, livrando-os da tortura, da perseguição e da morte.
Esses atos ficariam para sempre guardados no segredo da sua modéstia, como os gestos dos que sabem que Deus vê em secreto. Não fosse o trabalho investigativo da imprensa atuante, competente e moderna, não teríamos notícias disso.
É verdade que passamos por momentos sociais turbulentos e não são poucos os escândalos que enegrecem os céus da nação, carregados de nuvens tormentosas.
Dele jamais se ouviu uma frase precipitada, um julgamento apressado ou uma crítica mordaz, prenúncio das injúrias, infâmias e calúnias. Já há tantos insensatos de prontidão que se encarregam disso.
Ao invés de lançar a primeira pedra, ele é o que sempre foi, o sacerdote, o servidor do povo, o amigo de todos, o apóstolo das mãos estendidas que prefere construir a paz, não semear o ódio. Ao fim do dia, depois de mais um expediente no pequeno escritório, ele segue para sua residência no Sumaré. A caminho passa por tantos prédios bonitos com apartamentos exclusivos e não seria inadequado supor que não se cometeria qualquer injustiça se no melhor deles ele pudesse descansar.
Mas há que se respeitar quando alguém, por convicções próprias, decide exercer o direito de abrir mão do próprio direito. Um exemplo de idealismo e renúncia que não deve ser esquecido.

Marcelo Crivella SENADOR (PRB-RJ)

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